Folha de S. Paulo- 22-5-13
Azul barra cegos em voo por 'motivo de segurança'
Venceslau Borlina Filho, de Ribeirão Preto
A Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) pediu explicações à Azul
Linhas Aéreas por ter impedido o embarque de três cegos em um voo no
último domingo de Ribeirão Preto a Belo Horizonte (MG).
Enxadristas, os três participaram de um campeonato em Altinópolis (SP) e
estavam na sala de embarque do aeroporto Leite Lopes quando foram
impedidos pelo comandante de entrar na aeronave.
A empresa alegou motivo de segurança para a medida: apenas uma pessoa
com deficiência visual poderia viajar em um avião - e essa pessoa já
estava na aeronave.
Os clientes foram encaminhados para um hotel e embarcaram no dia
seguinte, cada um deles em um voo. O último cliente só decolou 24 horas
depois do primeiro voo.
Segundo os cegos, a Azul agiu com preconceito e não ofereceu
alternativas ou um questionário onde pudessem se informar sobre o problema.
Um deles, o analista de sistemas Crisolon Terto Vilas Boas, 54, afirmou
que vai solicitar indenização à Justiça. Vilas Boas contou que, durante
um campeonato na Polônia, 192 cegos pegaram um único voo para a Alemanha
e que não houve incidentes.
A Azul lamentou o ocorrido, mas reforçou que agiu pensando na segurança
do voo. "Tal medida é necessária para melhor auxiliar os deficientes em
casos de emergência."
Necessitar de auxílio não é sinônimo de dependência
Jairo Marques
No voo de volta para casa depois de uma exaustiva cobertura da
Paraolimpíada de Londres, no ano passado, viajaram comigo cerca de
outros 50 cadeirantes, afora um monte de cegos e outras pessoas da
delegação brasileira com deficiências diversas.
A logística de embarque foi impecável. Em poucos minutos, tudo estava feito.
A equipe de comissários era a padrão.
O piloto quebrou uma regra de segurança e botou todos em risco ao
decolar com praticamente uma ala da ortopedia do HC ou analisou que não
havia perigo?
Pessoas com deficiência têm suas formas de ter autonomia e não precisam,
necessariamente, de acompanhantes para tudo na vida.
Um cego, em uma situação de pânico, de falta de energia, será o primeiro
a achar a saída usando a audição e o olfato que costumam ser mais
desenvolvidos.
Em um voo lotado de crianças "cadeirantinhas" desacompanhadas ou de
pessoas com movimentos totalmente comprometidos, seria prudente pedir
reforço na equipe de bordo. Mas não é uma regra.
Indiscutivelmente, uma observação de segurança aérea precisa ser
plenamente considerada. O que não é mais possível é projetar em pessoas
com deficiência inabilidades que só quem não vê o ser humano em sua
integralidade é capaz de praticar.
Necessitar de auxílio não é sinônimo de dependência.
quarta-feira, 22 de maio de 2013
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