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terça-feira, 17 de março de 2020

O CORONA VÍRUS NO OLHAR DA PSICANÁLISE

O CORONA VÍRUS NO OLHAR DA PSICANÁLISE

Trecho de texto de _Christian Dunker, psicanalista e professor titular
da Universidade de São Paulo, autor de "Mal-estar, sofrimento e sintoma
-- Uma psicopatologia do Brasil entre muros" (Boitempo Editorial) e
"Reinvenção da intimidade -- Políticas do sofrimento cotidiano" (Ubu
Editora) publicado hoje no O Globo._

Acalmar-se é algo que ninguém pode fazer por você. Se você espera que
apenas mais notícias, informações e comentários venham pacificá-lo, ou
se você acha que aumentar o estoque de máscaras vai sanear sua angústia,
você está se enganando. O verbo é acalmar-se, e não ser acalmado pelos
outros e pelos objetos. O medo se combate com precaução e medidas
objetivas, a angústia com cuidado e trabalho subjetivo. Neste sentido a
pandemia tem muito a nos ensinar, especialmente quanto a nossas ilusões
de controle e dominação sobre o mundo e nosso destino. A crença digital
de que somos muito importantes e tantas outras promessas nos fazem
acreditar que somos soberanos sobre nossas vidas.

Daí aparece um pequeno micro-organismo, bastante limitado do ponto de
vista de sua capacidade reprodutiva e de sua estrutura biológica de RNA
e nos derruba. Ou seja, do ponto de vista de nossa angústia, o
coronavírus não poderia ter um nome melhor: ele nos tira do trono de nós
mesmos e coloca a coroa de nossas vidas em sua justa dimensão. É a coroa
de espinhos que convoca uma experiência escassa em nossa época: a
humildade.

Diante desta pequena e destrutiva força da natureza, nosso narcisismo se
dobra como um vassalo encurralado. Apesar de dolorosa como um espinho na
alma, esta pode ser uma experiência profundamente transformadora.
Descobrir que podemos muito menos do que pensamos, aceitar o
imponderável que nos governa e acolher com humildade o que ainda não
dominamos pode ser muito benéfico. Pode ser uma verdadeira terapia para
aqueles que precisam descansar a cabeça do peso de sua coroa de espinhos
narcísicos.