Total de visualizações de página

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Publicado em14/11/21 06:00

Selma Schmidt


Quando está em serviço, o golden Trevor foca exclusivamente no
trabalho. Nem latidos de pit bull, tampouco a aproximação de outros
cachorros, desviam a
sua atenção. O que importa são os comandos dados pelo musicista Jonas
Santiago â€" pedindo que o leve, por exemplo, ao ponto de ônibus, à
farmácia ou ao
supermercado. Devido à uma doença degenerativa, Jonas começou perder a
visão aos 10 anos, e, hoje, aos 36, só distingue se é dia ou noite.
Mas ele é um
dos poucos deficientes visuais que conseguem abolir a bengala.
Pesquisa feita em março deste ano pela União Nacional de Usuários de
Cães-Guias, revela
que há apenas 133 animais como esses, que são doados, em atividade no
Brasil.

Enquanto isso, os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, em 2010, o país já tinha
seis milhões de pessoas
com grande dificuldade para enxergar (483 mil do Estado do Rio), sendo
506 mil cegos (53 mil no Rio).

Em dezembro, o Rio voltará a ter um centro de formação de cães-guias,
com a instalação de uma filial do Instituto Magnus, entidade paulista
sem fins lucrativos,
em Itaipuaçu, distrito de Maricá. O projeto Cão Guia Brasil, que
funcionava no estado, está parado há alguns anos.

â€" É mais fácil ganhar na loteria do que conseguir um cão-guia. Na
nossa fila, em São Paulo, há 700 pessoas. Existem poucos animais
treinados, e é preciso
ainda haver compatibilidade entre eles e seus donos. É como a
transfusão de um órgão â€" compara Thiago Pereira, gerente-geral do
Magnus.

Poucas iniciativas no país

No Brasil, as iniciativas também são contadas nos dedos. Além do
Magnus, com sede em Salto de Pirapora, interior de São Paulo, desde
2018, O GLOBO localizou
três instituições, que lutam para permanecer de pé com os patrocínios,
já que os cachorros são doados: duas em Balneário Camboriú (Santa
Catarina) e outra
em Urutaí (Goiás).

â€" Preparar um cão-guia é algo muito caro e, no Brasil, poucos fazem
isso â€" explica a professora Ethel Rosenfeld, de 76 anos, uma das
pioneiras a ter o
animal no Brasil, na década de 1970, e que se notabilizou pela
campanha para a legalização da entrada do cão-guia como acompanhante
de cegos em espaços
públicos e privados, o que culminou com a aprovação de uma lei, em
2005. â€" Esses animais são muito importantes para os cegos. Depois que
rola a confiança
entre os dois, cachorro e dono, a gente não quer mais saber de bengala
ou de outras pessoas para ajudar.

Todos os seus três companheiros â€" o labrador Gem; o Cezar, uma mistura
de labrador e golden; e a golden Cindy â€" Ethel foi buscar na Guide Dog
Foundation
for the Blind, em Smithtown, em Nova York (EUA). O fato de conseguir a
primeira doação, a colocou na frente na fila de interessados para
obter outros cães.

â€" Quando perdi o Gem e o Cezar, me senti amputada do lado esquerdo.
Você fica imobilizada, tamanha a dependência. Deixei passar o luto, e
voltei à mesma
escola â€" conta Ethel, que, agora, por ponta da falta de equilíbrio
provocada pelo Parkinson, depende de uma acompanhante para ajudar
Cindy no seu trabalho.

Jonas está no segundo cachorro. Cardíaca, a fêmea Zuca, doada pelo Cão
Guia Brasil, se aposentou depois de dez anos em atividade. Continua
vivendo com
o musicista em sua casa num condomínio em São Francisco, em Niterói. O
trabalho de ajudar o rapaz, agora, é de responsabilidade do Trevor,
que já viajou
duas vezes com seu dono para os Estados Unidos. Jonas conta que o cão
é muito levado, quando não está de serviço.

â€" Quando me descuido, e deixo a porta aberta, ele apronta. Já entrou
em casa de vizinho e até no lago do condomínio para pegar peixe â€"
revela.

Treinamento: 18 meses

Doado pelo Magnus, Trevor é paulista. Na maternidade do instituto, há
seis reprodutores: dois machos e quatro fêmeas. Canis parceiros também
cedem filhotes.
Segundo Thiago Pereira, preparar um cão-guia para um cego custa entre
R$ 60 mil e R$ 80 mil, leva cerca de 18 meses e depende de famílias
voluntárias.
Dos 133 cachorros em atividade no país em março, 42 foram preparados
no instituto. Este ano, a entidade espera fechar com 17 animais
entregues.

A cantora Kátia, de 59 anos, não só trabalha no Magnus como entrou na
fila para conseguir um cão-guia. Ela chegou a ter um animal da Guide
Dog Foundation.

â€" Queria um cão brasileiro. O fato de trabalhar no instituto não me
coloca na frente de ninguém. E sei que o cachorro tem combinar com o
perfil do dono
â€" diz Kátia.

A preparação desses guias começa cedo. O instrutor George Thomaz
Harrison, do Magnus, conta que ainda nos primeiros meses são dados os
ensinamentos iniciais:

â€" Ele aprende a se sentar, a ir dormir na sua casinha e a fazer as
necessidades no gramado ou em pedrinhas. Não pode usar tapete
higiênico para não confundir
com tapete de hotel. O animal é também estimulado para ouvir barulho,
se ver no espelho e andar em diferentes pisos.

Em seguida, sob a supervisão do treinador, é a vez de ficar um ano na
casa de uma família acolhedora, sem cegos, para conhecer diversos
ambientes e aprender
comandos de obediência. Depois, volta para o instituto para cerca de
cinco meses de treinamento. No fim do processo, o deficiente visual
passa 15 dias
com o cão num hotel do centro de treinamento, e outra semana, com
acompanhamento, em casa.

Em Itaipuaçu, o centro de treinamento, em fase de construção, não terá
maternidade. Este mês, começaram a ser procuradas famílias acolhedoras
na região
de Niterói e Maricá. A ração e os tratamentos veterinários são por
conta do instituto. Os interessados podem se inscrever pelo site
institutomagnus.org,
na aba “família voluntária”, ou pelo e-mail contato@institutomagnus.org.

â€" É gratificante ver um pequeno, que não sabe fazer muito, se tornar
um cão-guia, com essa importante missão, que é um verdadeiro milagre.
Ele faz você
feliz com o conjunto: com a companhia, as brincadeiras de um pet e seu
desenvolvimento. Depois, ao seguir seu caminho, de tamanha essa
responsabilidade,
gera ainda mais felicidade, quando vejo uma foto dele ou recebo um
agradecimento do seu usuário por termos contribuído com sua formação â€"
diz Dalete de
Souza, voluntária de Salto de Pirapora que está em sua quarta socialização.

Em dezembro, chegada dos primeiros cães

A expectativa é que, em dezembro, cheguem ao Rio os primeiros cães
para serem encaminhados a famílias socializadoras. Um mês depois,
outros animais, socializados,
estarão em Itaipuaçu para serem treinados.

Longe dali, em Camboriú, uma das mais antigas instituições de
treinamento de cão-guia luta pela sobrevivência. A Helen Keller se
instalou em Florianópolis,
em 1998, e, desde, 2008, se mudou para Camboriú.

â€" Temos uma lista de espera de duas mil pessoas. Só que, com a
pandemia de Covid-19, os patrocinadores diminuíram. Não estamos
conseguindo doações. Nossa
meta em 2021, era entregar 16 cães. Até agora, doamos quatro, e
estamos tentando treinar outros seis â€" afirma Jennifer Ferreira, do
programa genético da
Helen Keller.

Ainda em Camboriú, funciona com dificuldade um instituto da União.
Mais uma unidade federal está instalada em Goiás.

â€" Chegaram a ser construídos outros centros do governo no país, que
não estão operando. O de Brasília, onde trabalhei, não funciona há
mais de cinco anos.
Depende da renovação de um convênio entre a União e o Corpo de
Bombeiros â€" esclarece o treinador Junio Cesar de Lima, que atualmente
está em Urutaí.


Fonte:
https://extra.globo.com/edicoes-digitais/a-ardua-tarefa-para-conseguir-um-cao-guia-sao-133-animais-6-milhoes-de-pessoas-com-grande-dificuldade-de-enxergar-no-pais-25275358.html