Texto maravilhoso! Muitas vezes passei e passo por algumas situações dessas.
Ser deficiente visual é:
É ser super protegido pelos pais e não conseguir ser independente, ou ser
tratado "normal" e as pessoas falarem que seus pais são monstros por te
deixarem se virar sozinho.
É viver com as pernas, os dedos do pé, e a testa roxos de machucados,
mas não desistir de ter uma infância feliz.
É querer muito começar logo a ir na escola e depois que começar a ir,
querer parar por que é deixado de lado pelos coleguinhas.
É nas horas de intervalos da aula, ficar sentado sozinho em uma mesa
enquanto seus coleguinhas correm para lá e para cá.
É ir para a escola, usar reglete para escrever e ter muita dor no braço
e nos dedos.
É ganhar a máquina perkins para escrever na sala de aula, o braço em fim
terá um pouco de descanso, e seus colegas reclamarem que não conseguem
prestar a atenção por que a máquina faz muito barulho.
É aprender desde muito sedo o que é o preconceito e a falta de empatia.
É ser muitas vezes chamado de "ceguinho / ceguinha" e ter vontade de
dizer que "ceguinho" é a sua mãe, mas no fim ficar quieto e algumas
vezes depois chorar sozinho lembrando.
É gostar de algum menino / menina, e nunca ter coragem de se declarar,
pois afinal ele / ela não vai querer alguém que não enxerga.
É ter muitos amigos na sala de aula, mas só por que eles querem ficar
saindo da aula para nós, para buscar livros ou materiais.
É ter que fazer provas e trabalhos em dupla por que os professores
esqueceram de adaptar para que possamos fazer sozinhos.
É ter que aceitar a bengala quase como parte de nós, ter que confiar para andarmos sozinhos e
decorar os lugares.
É ter que deixar o orgulho de lado e aprender a pedir ajuda quando
precisamos, muitas vezes para encontrar um lugar que está ali ao nosso
lado.
É não ser chamado para uma entrevista de emprego por que na empresa tem
escadas e eles acham que nós não podemos subir e descer escadas. Ou ser
chamado para a entrevista e ser tratado com muito preconceito
É ouvir que não devemos ter filhos, por que não conseguiremos cuidar
deles sozinhos.
É quando nos casamos se a pessoa enxerga, ouvimos que ele / ela
é um anjo por ter casado com agente, que vai nos cuidar e no ponto de
vista delas a pessoa já está com o lugar garantido no céu. E se casamos com
alguém que não enxerga também, falam que não podemos morar sozinhos,
que quem que vai nos cuidar, quem que vai limpar a casa, fazer comida e
nos levar para os lugares.
É virar o pé nos buracos das calçadas, as vezes cair, mas levantar e
seguir como se não tivesse acontecido nada.
É tropeçar em obstáculos que ontem não estavam ali e fingir que não foi
nada, mesmo que tenhamos derrubado algo ou nos machucado.
É bater em placas, postes, orelhões, árvores, toldos e outros objetos
que encontramos nas calçadas e continuar
caminhando com cara de paisagem, mesmo que a vontade seja de xingar até
a décima geração da pessoa que projeta essas coisas.
É conhecer as pessoas pela voz e formar as personalidades delas através
do tom e do jeito que elas falam.
É confiar plenamente em nossa audição para atravessar as ruas sem ser
atropelado.
É decorar o lado que fica os interruptores de nossas casas para sabermos
se as luzes estão ligadas ou não.
É decorar as cores de todas as nossas roupas e calçados para não andar
fantasiados por aí e as vezes esquecer de algumas e sair com uma calça
vermelha e uma blusa amarela.
É ter calçados parecidos, mas com a cor diferente e um dia colocar um pé
de cada um, e só se dar conta depois que já saiu de casa e não tem mais
como voltar para trocar e ficar rezando que as pessoas não olhem para
nossos pés.
É andar por vários lugares desconhecidos, viajar para diversas cidades
sozinhos, confiando em nossa capacidade e em nossa bengala, e um dia se perder na
rua da própria casa.
É fazer comida e saber quando está pronto pelo barulho e pela textura
dos alimentos.
É limpar a casa, usando nosso tato para saber onde está sujo e onde já
está limpo.
É ter que colocar a mão no cocô de nossos bebês para saber se está tudo
normal e o mesmo serve para a corisa do narizinho deles, para o ouvido e todo o corpo.
É arrumar diversas formas para diferenciar as notas de dinheiro, dobras
diferentes, escrever em braille, colocar em alguma ordem diferente e em
algum dia ser enganado com o troco que recebemos e só saber disso quando
vamos usar o dinheiro novamente.
É usar computadores, tablets e smartphones com programa de vóz para nos
auxiliar e usar o GPS para encontrar lugares que queremos ir.
É muitas vezes adquirir outras deficiências que as pessoas nos colocam,
quando acham que não ouvimos e falam quase gritando conosco, ou quando
pensam que não falamos, pois perguntam o que querem saber a nosso
respeito para a pessoa que nos acompanha.
É ser taxado ou de herói por conseguir fazer tudo sem enxergar, ou de
coitadinhos pelo mesmo motivo.
É ser contratado para trabalhar por causa das cotas e surpreender a
todos por conseguirmos desempenhar perfeitamente nossas funções. Ou ser
contratado e ficar lá, só cumprindo a cota sem ter a
oportunidade de mostrar o que somos capazes.
É ter que provar uma, duas, dez, sem, até mil vezes que somos capazes,
que só não temos a visão, mas que o resto funciona perfeitamente e que podemos fazer tudo o que os ditos "normais" fazem.
É mostrar que conhecemos o mundo através dos outros sentidos.
É se sentir muito grato quando recebemos uma ajuda da forma correta,
sem ser puxados, ou sem arrancarem a bengala de nossas mãos.
É ouvir muitas vezes que nossos filhos tem que cuidar bem da mamãe e
do papai, que eles são anjos enviados para nos cuidar, mesmo eles ainda
sendo crianças que ainda não tomam nem banho sozinhos.
É conhecer cada traço do rosto de nossos filhos apenas com o toque da
ponta dos dedos.
É conhecer a onda que faz o cabelinho deles, a covinha da buxecha
quando eles riem e a carinha deles quando estão tristes.
É saber o que eles estão fazendo só pelo barulho ou pelo silêncio que
eles estão fazendo.
É imaginar cada sorriso deles e sorrir junto só com o som que eles
fazem.
É descobrir diversas formas de sentimentos, e diversas formas de
amar, que quem enxerga não conhece.
É amar, amar e amar sem nunca ter visto as características físicas das
pessoas que amamos!
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Escrito baseado em experiências que já vivi.
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Patricia M. Celestrin.
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