Joãozinho, depois de ter passado a noite vigiando a irmã que
namorava
no sofá da sala, conta para a mãe tudo o que viu:
- Mãe, a Suzana e o namorado apagaram a maior parte das luzes e
sentaram-se. Ele ficou perto dela e começou a abraçá-la. A
Suzana
deve ter começado a ficar doente visto que a sua face começou a
ficar
vermelha. O namorado deve ter percebido e colocou-lhe a mão por
dentro da camisa para sentir o coração, demorando porém muito
tempo a
encontrá-lo. Penso que ele também começou a ficar doente,
porque
ambos começaram a arfar e a ficar sem respiração. A outra
mão dele
também devia estar fria, porque ele meteu-a por baixo da saia da
Suzana, que começou logo a escorregar para o fundo do sofá e a
dizer
que se sentia muito quente.
Depois de algum tempo consegui ver o que estava realmente a provocar
aquela doença: uma enguia enorme tinha saltado das calças dele,
deveria ter uns 17 cm de comprimento. Assim que avistou-a Suzana
agarrou-a para impedir que ela fugisse. Disse então que era a
maior
que já tinha visto até aquele dia! De repente, não sei por
que,
Suzana ficou brava e tentou matá-la comendo-lhe a cabeça, mas
parece
que não conseguiu e ainda deixou-a escapar.
Nisso o namorado dela tirou um saco de plástico do bolso e enfiou
a
enguia dentro, para que ela não tornasse a escapar. Ao ver isso,
Suzana tentou ajudá-lo deitando-se de costas e prendendo a enguia
entre as suas pernas enquanto o namorado deitava por cima dela. Nisso
a enguia começou a se debater, mas eles, corajosamente, tentavam
esmagá-la entre eles. Suzana gemia, gritava e o namorado quase que
virava o sofá de tanto esforço. Passado algum tempo, ambos
continuavam a gemer, a mexer até que soltaram um grande suspiro de
alívio. O namorado dela levantou-se e por certo tinham matado a
enguia. Eu sei que estavamorta porque a vi dependurada. A Suzana e o
namorado estavam cansados da batalha e sentaram-se no sofá e
começaram a confortar-se um ao outro. Para animá-la ele
começou a
beijá-la e, diabos me levem se a enguia que estava morta, não
voltou
a saltar e a luta recomeçou novamente.
Mãe, eu penso que as enguias são como os gatos, tem sete vidas
ou
mais! Desta vez a Suzana saltou para cima dele e tentou matar a
enguia sentando-se nela. Depois de uma luta de 35 minutos, acabaram
finalmente por matar a enguia. Eu sei que desta vez ela morreu,
porque vi o namorado da Suzana esfolá-la e jogar a pele pela
janela.
domingo, 6 de março de 2011
Vamos rir um pouquinho!
Meus sustos
Na semana passada, escrevi aqui sobre certos exageros na relação dos
seres humanos com seus animais de estimação. Alguns leitores ficaram
assustados com a minha opinião. Eu também tenho os meus sustos.
Eu me assusto quando ouço alguém dizer que quanto mais conhece os
homens, mais prefere os animais. Eu me assusto tentando imaginar com que
seres humanos essas pessoas convivem. Eu me assusto quando alguém me diz
que o afeto mais sincero nos é dado pelos animais. Mais uma vez, eu me
assusto pensando nos amigos, amores e parentes de quem diz isso.
Eu me assusto quando vejo crianças pedindo esmola e cachorros com hora
marcada para fazer as unhas e pelos. Eu me assusto quando sei que
pessoas gastam mais de mil reais por mês com seus cachorrinhos enquanto
milhões de brasileiros não ganham isso para sustentar a família.
Eu me assusto quando vejo alguém beijar cachorro na boca, carregá-lo em
carrinho de criança ou chamá-lo de meu filhinho. Eu me assusto quando
vejo carnívoros contumazes pregarem moral em defesa dos animais. Eu me
assusto ao pensar que a mesma sociedade que protege os cães lambe os
beiços comendo um cordeirinho mamão assado. Por que essa discriminação
com bois, porcos, ovelhas, peixes e galinhas? Eu me assusto pensando que
nós, carnívoros, somos cúmplices de assassinatos em massa a cada dia.
Eu me assusto com quem maltrata animais e com quem confunde criticar
exageros dos seres humanos com não gostar de animais. Eu me assusto
quando ouço especialistas explicarem que não há perigo com certos cães
desde que eles sejam bem adestrados e conduzidos com guia curta,
focinheira, enforcador e por quem tenha força suficiente para detê-los.
Uau! Para quê? Por quê? Eu sou muito assustado. Eu me assusto com nossas
contradições.
Eu me assusto quando uma criança é morta por um cão feroz, o que
acontece com muita frequência, e só ouço palavras para justificar o
animal.
Eu me assusto com quem diz que só confia no seu cão ou no seu gato. Eu
me assusto com quem afirma só conversar com seu bichinho de estimação.
Eu me assusto ao pensar que isso pode ser o sintoma de uma sociedade
cada vez mais egoísta e umbilical, na qual se prefere destinar os
melhores afetos e recursos para animais do que para crianças
desconhecidas e necessitadas. Eu me assusto com quem diz "eu amo o meu
cachorro" em lugar de "eu gosto muito do meu cachorro". Eu me assusto
pensando que não sou exemplo, não faço a minha parte, mas me choco com
essa sublimação de afetos represados. Eu me assusto muito.
Eu me assusto inventando ironias para tentar entender essa obsessão.
Cães e gatos não correm o risco de fumar crack ou de virar emo. Eu me
assusto pensando que algumas pessoas não se assustam com isso e que se
pode chamar a humanidade de perigosa, mas não um Pit Bull. Eu me assusto
pensando que essa paixão por bichos é um sintoma de solidão. Eu me
assusto pensando que certas pessoas amam seus bichos porque podem
adestrá-los e submetê-los ainda que lhes gabem a autonomia. Como o
personagem de Robert Musil, eu me assusto quando um cavalo é chamado de
genial. E um Buldogue de meu amor.
Correio do Povo, 8 DE FEVEREIRO DE 2011
