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domingo, 6 de março de 2011

Meus sustos

Juremir Machado da Silva

Na semana passada, escrevi aqui sobre certos exageros na relação dos
seres humanos com seus animais de estimação. Alguns leitores ficaram
assustados com a minha opinião. Eu também tenho os meus sustos.

Eu me assusto quando ouço alguém dizer que quanto mais conhece os
homens, mais prefere os animais. Eu me assusto tentando imaginar com que
seres humanos essas pessoas convivem. Eu me assusto quando alguém me diz
que o afeto mais sincero nos é dado pelos animais. Mais uma vez, eu me
assusto pensando nos amigos, amores e parentes de quem diz isso.

Eu me assusto quando vejo crianças pedindo esmola e cachorros com hora
marcada para fazer as unhas e pelos. Eu me assusto quando sei que
pessoas gastam mais de mil reais por mês com seus cachorrinhos enquanto
milhões de brasileiros não ganham isso para sustentar a família.

Eu me assusto quando vejo alguém beijar cachorro na boca, carregá-lo em
carrinho de criança ou chamá-lo de meu filhinho. Eu me assusto quando
vejo carnívoros contumazes pregarem moral em defesa dos animais. Eu me
assusto ao pensar que a mesma sociedade que protege os cães lambe os
beiços comendo um cordeirinho mamão assado. Por que essa discriminação
com bois, porcos, ovelhas, peixes e galinhas? Eu me assusto pensando que
nós, carnívoros, somos cúmplices de assassinatos em massa a cada dia.

Eu me assusto com quem maltrata animais e com quem confunde criticar
exageros dos seres humanos com não gostar de animais. Eu me assusto
quando ouço especialistas explicarem que não há perigo com certos cães
desde que eles sejam bem adestrados e conduzidos com guia curta,
focinheira, enforcador e por quem tenha força suficiente para detê-los.
Uau! Para quê? Por quê? Eu sou muito assustado. Eu me assusto com nossas
contradições.

Eu me assusto quando uma criança é morta por um cão feroz, o que
acontece com muita frequência, e só ouço palavras para justificar o
animal.

Eu me assusto com quem diz que só confia no seu cão ou no seu gato. Eu
me assusto com quem afirma só conversar com seu bichinho de estimação.
Eu me assusto ao pensar que isso pode ser o sintoma de uma sociedade
cada vez mais egoísta e umbilical, na qual se prefere destinar os
melhores afetos e recursos para animais do que para crianças
desconhecidas e necessitadas. Eu me assusto com quem diz "eu amo o meu
cachorro" em lugar de "eu gosto muito do meu cachorro". Eu me assusto
pensando que não sou exemplo, não faço a minha parte, mas me choco com
essa sublimação de afetos represados. Eu me assusto muito.

Eu me assusto inventando ironias para tentar entender essa obsessão.
Cães e gatos não correm o risco de fumar crack ou de virar emo. Eu me
assusto pensando que algumas pessoas não se assustam com isso e que se
pode chamar a humanidade de perigosa, mas não um Pit Bull. Eu me assusto
pensando que essa paixão por bichos é um sintoma de solidão. Eu me
assusto pensando que certas pessoas amam seus bichos porque podem
adestrá-los e submetê-los ainda que lhes gabem a autonomia. Como o
personagem de Robert Musil, eu me assusto quando um cavalo é chamado de
genial. E um Buldogue de meu amor.


Correio do Povo, 8 DE FEVEREIRO DE 2011

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