Total de visualizações de página

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Pancrácio

Pancrácio morava numa ilha e só muito eventualmente vinha à cidade. Num certo Natal, abriu uma exceção e resolveu finalmente aceder ao convite que havia tempo
lhe faziam os parentes para partilhar com eles essa noite tão especial. Pancrácio era não só velho — era antigo. Seu nome já é uma evidência disso. Há muitos anos
que os cartórios do país não registram o nascimento de nenhuma criança chamada Pancrácio. Acresce que Pancrácio nunca conviveu com pessoas que, tomadas por modas
modernas, passassem a chamá-lo de "Pan", ou de "Crácio". Ele era Pancrácio e pronto. Era antigo e não sabia que era antigo, o que é uma forma infalível de tornar
irremediável a antiguidade de alguém.
Pancrácio foi muito bem recebido pelos parentes. O sobrinho Rafael, destacado empresário, deu-lhe um forte abraço e relembrou os tempos em que, criança, passava
férias na ilha do tio, onde aprendeu a nadar e a pescar. Ó que bons tempos!, disse. Era cedo ainda; Pancrácio fora o primeiro a chegar para a celebração. Rafael
fê-lo acomodar-se numa poltrona e acomodou-se ao seu lado. Ato contínuo, tirou um fino tijolinho do bolso — não exageremos, Pancrácio sabia o que era: um telefone
celular — e passou a dividir o olhar entre o tio e a pequena tela do aparelho. Estavam por enquanto só os dois na sala, mas eis que desponta, vinda da rua, a mulher
de Rafael, Sônia. Por sua vez, ela vinha falando ao celular. Sem tirar o telefone do ouvido, aproximou-se de Pancrácio com um largo sorriso, e deu-lhe um beijo
em
cada face. "E como você conseguiu vir?", disse ela. Pancrácio ia começar a responder quando percebeu que a pergunta não era para ele, mas para a pessoa ao telefone.
Nesse ínterim, Rafael, não contente em contemplar o telefone e, eventualmente, passar-lhe a mão, como se o acariciasse, passou a dedilhá-lo furiosamente. Pancrácio
sabia, da última incursão à cidade, anos atrás, o que é um telefone celular, mas não daquele tipo, com uma telinha e, ao que lhe era possível discernir, um teclado
com letras e números. Sônia finalmente terminou a conversa e ia, agora sim, dirigir a palavra a Pancrácio, quando seu telefone tocou e a levou a engajar-se em outra
conversação. Ela deu um adeusinho a Pancrácio com a mão e deixou a sala, para continuar o telefonema em ambiente reservado. Rafael continuava a dedilhar seu aparelho,
agora sem nem mesmo levantar os olhos para o tio. Nisso adentra a sala a filha adolescente do casal, Mariana. Ela vinha com dois fios grudados ao ouvido. Tirou
um
deles ao aproximar-se de Pancrácio, deu-lhe um beijo e lhe disse: "Feliz Natal!". Pancrácio desejou-lhe igualmente um feliz Natal e comentou como ela estava crescida
e bonita, mas Mariana não o ouvia mais. Já tinha reposto o fio que faltava no ouvido.
Começaram a chegar os convidados. Ricardo, irmão de Rafael, e portanto outro sobrinho de Pancrácio, chegou sobraçando uma pasta de onde tirou... um espelho?
uma pequena bandeja? uma fina lâmina de aço? Desta vez Pancrácio não sabia o que era; ao longo da noite, aprenderia que aquilo se chamava tablet. Ricardo vinha
com
a mulher, Carmen. Os dois foram carinhosos como os precedentes com Pancrácio — estavam muito felizes em vê-lo depois de tanto tempo, que bom que ele tivesse concordado
em vir —, mas logo se recolheram a uma mesa, sobre a qual depositaram o objeto e em torno do qual iniciaram uma confabulação não isenta do que pareciam severas
discordâncias.
"Você não configurou direito", dizia ele. "Mas eu fiz tudo exatamente como costumo fazer." "Como é que não estou conseguindo?"
Ricardo e Carmen eram pais de um par de gêmeos, cada um naquele momento na posse de seu próprio aparelhinho. "Cumprimentem o tio Pancrácio", ordenou Ricardo,
entre uma discordância e outra com a mulher. Os meninos não conheciam aquele tio, mas eram efusivos. Um deles saltou e pendurou-se ao pescoço de Pancrácio, abraçando-o
fortemente, mas sem deixar de, com uma só mão, continuar prodigiosamente a dedilhar seu aparelho, do qual não desgrudava os olhos. Vieram em seguida uma vizinha
da mesma idade que Mariana e igualmente com dois fios espetados no ouvido e, enfim, a prima Albertina, que era solteira e mais velha, mas não tão velha quanto Pancrácio.
O celular da prima tinha a característica de chamar sua atenção com um assobio, disparado com amiudada frequência e ao qual ela respondia prontamente, mas ainda
assim, talvez por uma questão de idade, ela era a pessoa que mais dava atenção a Pancrácio.
A noite transcorreu entre contemplação da tela dos respectivos aparelhos, chamadas telefônicas e feroz dedilhamento de teclados. Mariana e a vizinha balançavam
o corpo a um canto, uma olhando para a outra, mas seguindo cada uma o ritmo que lhe ditava o respectivo par de fios nas orelhas. Depois cansaram e encaixaram-se
as duas numa mesma poltrona, para partilhar um objeto que... Ah, sim, Pancrácio o conhecia, embora não assim tão esguio: era um computador portátil, desses que
quando
abrem revelam a tela de um lado e o teclado do outro. Nesse mesmo momento Ricardo gritou: "Consegui!", e cessaram as desavenças com a mulher. Ele conseguiu o quê?,
perguntou discretamente Pancrácio à prima Albertina. "Conseguiu conexão", respondeu ela. Pancrácio fez que entendeu. Ricardo agora não desgrudava daquilo chamado
tablet e Carmen lançava olhares amorosos para a mesma tela, selando a paz entre o casal. Depois Carmen sacou de seu celular e percorreu a sala apontando a maquininha
para várias pessoas. "Ela finge que está tirando fotos", sussurrou Pancrácio para a prima Albertina. "Não, ela está mesmo tirando fotos", corrigiu a prima. Sônia
em seguida fez a mesma coisa, flagrando os convidados em diferentes situações. Todos passaram a fotografar-se uns aos outros. "Daqui a segundos essas fotos estarão
todas no Facebook", explicou a prima Albertina. Pancrácio nem ousou perguntar o que seria aquilo.
Pancrácio sentia falta de certos rituais do que entendia por noite de Natal. E a troca de presentes? Rafael fê-lo repetir a pergunta. O quê? Presentes. Não
vamos trocá-los? Rafael, mergulhado que estava na tela do celular, voltou penosamente à tona. Ah, sim, presentes. Sim, mas não agora. Nós combinamos de mandar os
presentes para a casa uns dos outros, para abrirmos quando quisermos. Aqui seria muita perda de tempo ficar desembrulhando pacote, abrindo caixa... A prima Albertina
ajudou Pancrácio a entender, ao sussurar-lhe ao ouvido: "Não dá para ficar muito tempo desconectado". Ele tinha trazido peças produzidas pelos artesãos de sua ilha
para presentear os parentes. Decidiu que, se fosse o caso de entregá-las, não seria agora. Chegou a hora da ceia. As crianças e adolescentes foram dispensados de
sentar à mesa, para não cortar suas atividades junto a seus aparelhos. Os adultos acomodaram-se depositando ao lado do prato os respectivos celulares e, no caso
de Ricardo, o tablet. Pancrácio não tinha como fazer o mesmo, mas nem por isso se sentiu menosprezado. Os outros, entre uma operação eletrônica e outra, continuavam
a contemplá-lo com sorrisos e palavras carinhosas.
Pancrácio saiu intrigado da experiência daquela noite. Não, não se sentiu menosprezado. Todos se mostraram muito gentis e carinhosos. Ele só se achava algo
desatualizado dos costumes da cidade. Graças às explicações da prima Albertina, acabara por entender que as pessoas, naquelas poucas horas, haviam desenvolvido
múltiplas
atividades. Os celulares permitiam que elas mandassem e recebessem mensagens escritas. Também podiam se inteirar das notícias — como é que se pode ficar sem notícia?
— , ou mesmo entreter-se com joguinhos. No tablet, entre outras coisas, podiam ler jornais e revistas sem ter de comprá-los na banca nem entulhar a casa com pilhas
de papel. As meninas com fios nas orelhas ouviam músicas — muitas músicas armazenadas num único aparelhinho. Pancrácio concluiu que naquela noite tão instrutiva
fora apresentado não apenas a novas engenhocas, mas sobretudo a um novo ser humano, ligado em diferentes canais e capaz de desempenhar múltiplas funções ao mesmo
tempo. O mundo era assim, agora. Como fazer para alcançar o mesmo estágio?
No Natal seguinte, compareceu empunhando uma grande (e antiquada, claro) mala, quase um baú, que arrastava com dificuldade. Rafael, com a mão esquerda livre,
enquanto a direita sustentava o celular, ajudou-o a trazê-la para dentro. Pancrácio escolheu acomodar-se na poltrona vizinha a uma mesa de centro e começou a tirar
os objetos de dentro da mala. Primeiro a máquina de escrever. Ele aproveitaria o tempo para escrever cartas aos amigos da ilha. Depois tirou o rádio de pilha, da
marca Spica, com o qual se atualizaria nas notícias e relaxaria ouvindo música. Rafael nem notou a movimentação do tio, ocupado que estava em digitar uma mensagem.
Já Mariana entrou correndo na sala ao ouvir as primeiras batucadas da máquina de escrever. Que seria aquilo? Encontrou Pancrácio já ligado ao rádio de pilha por
um fiozinho preso à orelha (fiozinho de orelha ele também tinha). O tio recebeu-a com um largo sorriso e um beijo, ainda que sem tirar as mãos da máquina de escrever.
Mariana achou curioso o teclado, tão parecido com o de seus aparelhos. Deve ter sido copiado do computador, pensou. Grande novidade eram aquelas hastezinhas que
levavam as letras até imprimi-las numa folha de papel. Deve ser o que também acontece dentro do computador e a gente não vê.
Chegaram Ricardo e Carmen e acharam engraçado ver o tio a martelar a máquina de escrever, mas não tinham tempo a perder e logo se recolheram, ela agora ao
tablet,
ele ao celular. Já os gêmeos quiseram experimentar bater naquelas teclas que faziam um barulho tão interessante. Pancrácio deixou. Para não perder tempo, enquanto
isso, sacou da mala um baralho e começou a dispor as cartas na mesa. Ia jogar paciência. Sônia despontou na sala, e foi premiada com a primeira foto da Kodak que
Pancrácio não esquecera de também acrescentar a seu arsenal. A prima Albertina, que chegou em seguida, mereceu a segunda. "Mas desse jeito não dá para postar no
Facebook", ela avisou. Pancrácio, ligado ao boletim de notícias no rádio, enquanto avançava no jogo de paciência, não ouviu. Mariana nesse momento voltava da casa
do vizinho, trazendo a amiga. Queria mostrar-lhe a máquina de escrever, uma invenção, explicou-lhe, que entre outras características, "está vendo?", dispensa a
intermediação
da impressora para gerar o texto no papel. "Eu gosto do rolo que roda, vai e volta quando a gente empurra essa asinha", disse a amiga. ''Chama-se 'carro'", explicou
Pancrácio. "Carro?", e as meninas riram, tapando a boca com as mãos. "Um carro sem rodas?"
Pancrácio puxou da mala um bloco e uma caneta. Era uma caneta-tinteiro. Verificou que não tinha tinta e sacou do tinteiro, no qual mergulhou a caneta. Os gêmeos
e as meninas acompanhavam a operação fascinados. Para mais bem usufruir aquele momento de sucesso, abriu a caneta e espirrou a tinta de volta ao tinteiro. Depois,
mergulhou-a uma segunda vez e de novo a abasteceu. As crianças seguiam-no pasmas. Pancrácio começou a rabiscar mensagens no bloco e combinou com os gêmeos que eles
as levariam a seu destino. A primeira foi para Sônia: "Feliz Natal". Ela respondeu, no verso do mesmo papel, rabiscando com a caneta esferográfica que foi buscar
na cozinha: "Feliz Natal para você também, tio Pancrácio". Seguiram-se outras mensagens iguais. Todos acharam ótimo esse método de desejar feliz Natal, porque assim
não perdiam tempo dirigindo a palavra uns aos outros. Os gêmeos iam e vinham alegremente e sem descanso. Haviam sido contemplados com uma inesperada diversão. A
cada bilhete — e houve muitos, versando também sobre o tempo que fazia naquela noite, os planos para as férias de janeiro, e outros assuntos —, Pancrácio secava
o excesso de tinta com um objeto que pareceu às crianças uma gangorra em miniatura. "É um mata-borrão", ele explicou. As meninas olharam-se intrigadas. MA-TA-BOR-RÃOH!
Na hora da ceia, repetiu-se o ritual de cada um depositar o celular ao lado do respectivo prato. Pancrácio depositou o rádio Spica, ao qual continuou ligado
pelo fio na orelha. As meninas e os gêmeos pediram para, enquanto isso, brincar com as coisas de Pancrácio. Desde que ele chegara, eles não tinham recorrido a seus
aparelhinhos. Ao voltar à sua ilha, Pancrácio saboreava o seu triunfo. Não é apenas que, também ele, conseguira mostrar-se um ser múltiplo, plugado simultaneamente
em diferentes canais e capaz de exercer diferentes funções. Enchia-o de satisfação ter percebido, enquanto ceava, que as crianças brigavam pela posse do mata-borrão.
Ele acertara em trazer seus objetos. No mata-borrão entrevia a chave do futuro.

ROBERTO POMPEU DE TOLEDO FICÇÃO CONTO DE NATAL

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.