Estranha presença - Sarah Waters
O livro conta a história de uma família de aristocratas ingleses falida
após a II Guerra Mundial e vivendo em uma antiga mansão rural arruinada.
O pano de fundo é a morte de um modo de vida e o surgimento de outro.
Parte das terras da antiga fazenda foi desapropriada para que o governo
construa loteamentos de casas para uma nova classe média emergente. A
família Ayres, enquanto ressente-se da glória perdida e teme a
aproximação da âœraléâ, afunda em dívidas e dramas psicológicos que
desenterram medos profundos e antigos. A loucura ronda.
A história é contada pelo amigo dos Ayres, um comedido, pacato, porém
ambicioso, médico que encarna o protótipo do homem metódico e fleumático
britânico, chamado Faraday. Vindo dessa mesma ralé rejeitada pelos
aristocratas, ao longo da trama, ele ganha a confiança da família por
sua aparente solidez moral e mental. A proximidade com a atormentada
família, porém, envolve-o nos acontecimentos sobrenaturais que tem como
cenário a sinistra mansão de Hundreds Hall.
Também em comum com
O livro traz a atmosfera opressiva e os segredos por trás
das muitas portas da antiga mansão.
A narrativa hábil de Sara Waters propõe o bom e velho jogo de espelhos.
Nem tudo é o que parece ser e as conclusões mais apressadas do leitor
acabam frustradas pela habilidosa e intrincada trama da autora. Para
quem gosta de ser surpreendido, as expectativas são prontamente
atendidas. Além disso, ela propõe um romance entre Faraday e a herdeira
da mansão, Caroline Ayres, pontuado por preconceitos de classe,
expectativas e desejos de uma fuga da realidade vivida pelos dois. O
leitor tem uma intuição do que poderá resultar de semelhante enlace, mas
a autora ilude a percepção até dos mais argutos.
A trama contada por um observador também envolvido na história não deixa
de trazer aquelas questões de sempre sobre o quanto da nossa visão de
leitor está contaminada pelo olhar de um único personagem. A dica é ler
as entrelinhas, ter em mente a sequência cronológica dos fatos e se ater
aos âœatos falhosâ da narrativa de Faraday. Pelo desafio à sagacidade
do leitor, o texto lembra Conan Doyle e Agatha Christie, não à toa dois
autores britânicos â" assim como também é o cineasta Alfred Hitchcock #
de literatura de mistério, que precederam Sarah Waters e lançaram bases
sólidas para este tipo de entretenimento que não se pretende
elaboradíssimo ou erudito, mas é intenso dentro da sua proposta.
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